06/11/2026 às 10h15
Por Rebecca Loureiro | Foto: Rodrigo Serafim
A literatura ganhou diferentes vozes e formas de expressão em Arapiraca, no Agreste alagoano. Depois de três dias de encontros, apresentações, debates e manifestações artísticas, o Festival Arte da Palavra (Farpa) 2026 chegou ao fim na noite desta quinta-feira, 5, deixando como principal legado a celebração da diversidade cultural brasileira e a aproximação entre artistas, escritores e público. O evento transformou o Sesc Arapiraca em um espaço de circulação de ideias e reafirmou a força da literatura para além das páginas dos livros.
Mais do que apresentações artísticas, o Farpa proporcionou uma experiência de convivência e intercâmbio entre profissionais da cultura de diferentes partes do país. Para o analista de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, Diogo Borges, essa troca direta é um dos principais diferenciais do festival. “O Farpa tem uma importância grande para o Brasil porque a gente tem um espaço de troca verdadeiro, onde artistas, público e equipes do Sesc podem conviver nos dias do festival de forma muito direta. Além de estarem aqui no palco fazendo seus trabalhos, participando de debates, saraus e narrações de histórias, os artistas também estão como público, prestigiando outras manifestações literárias”, destacou.
A programação do último dia manteve o espírito de integração que marcou o festival desde a abertura, na terça-feira (3). No Sesc Arapiraca, o público acompanhou as contações de histórias “Nem muito longe, nem muito perto daqui”, com Camila Costa (RJ), e “Semeando histórias originárias", com Anélita Nuñez e Jeff Nefferkturu (SC). Ainda na quinta, a cultura popular ganhou espaço com a apresentação de cordel, reisado e repente, conduzida pelo Poeta Beiju (PI) e Mago Veio (AL), aproximando diferentes tradições e expressões da oralidade.
À noite, a Vila Vinil recebeu o Sarau do Farpa, que reuniu Elinilson Soares e Lucas Sol (BA), Tácio Pimenta (TO), Larissa Campos (MT), Naty Barros (AL), Ira (ES) e Carla Guerson (ES). A diversidade de trajetórias e sotaques transformou o espaço em um grande encontro literário. Para fechar a programação, a cantora alagoana Fernanda Guimarães subiu ao palco e embalou o público em um show que celebrou a música e a alegria de estar junto, um dos principais valores do Farpa.
A dimensão nacional do projeto também foi destacada pela analista de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, Priscila Branco. O Arte da Palavra é considerado o maior circuito literário brasileiro e promove a circulação de autores de diferentes estados pelo país. Dentro dessa proposta, o Farpa funciona como uma imersão nas experiências construídas ao longo do circuito. “O Arte da Palavra faz com que autores de diversos estados do Brasil circulem pelo país todo, e o Farpa, que é o festival do Arte da Palavra, promove o encontro entre artistas e escritores. Então, é muito emocionante estar aqui em Arapiraca, em Alagoas, e conhecer todos esses escritores que circularam ao longo de 2026 pelo Brasil”, afirmou.
Para o gerente de Cultura do Sesc Alagoas, Luann Veiga, a realização do festival representa a culminância de um projeto que amplia as possibilidades de contato da população com a literatura e suas diferentes linguagens. Segundo ele, a iniciativa fortalece o acesso à cultura tanto para o público em geral quanto para os trabalhadores do comércio e os próprios fazedores de cultura. “O Festival Arte da Palavra sintetiza um projeto muito potente, que possibilita à comunidade em geral, ao nosso público preferencial, que é o trabalhador do comércio, aos artistas e fazedores de cultura esse grande encontro com as diversas formas da literatura. O Arte da Palavra traz essa perspectiva de que a literatura vai muito além dos livros”, explicou.
Essa diversidade esteve especialmente presente na contação de histórias “Semeando histórias originárias", que aproximou o público de narrativas, identidades e experiências culturais distintas, conduzidas por Anélita Nuñez, de origem guarani, e Jeff Nefferkturu, de Cabo Verde. “Eu estou encantada com esse evento, que me nutriu muito de ver tantos artistas incríveis aqui no Farpa. Estou muito alimentada pela diversidade dos temperos, das pessoas, e muito feliz de ter participado”, compartilhou Anélita. Jeff também ressaltou o valor do intercâmbio cultural e linguístico. “Para mim também é uma honra enorme estar nesses intercâmbios culturais com esse Brasilzão enorme que eu consegui presenciar aqui no Farpa”, afirmou.
Literatura que aproxima territórios
Ao ocupar diferentes espaços de Arapiraca com contações de histórias, performances, bate-papos, debates, saraus, cordel, repente, reisado e música, o Farpa mostrou que a literatura não se limita a um único formato ou ambiente. Ela também está na oralidade, nas tradições populares, nas memórias compartilhadas e nas histórias que atravessam gerações e fronteiras.
A escritora, leitora, crítica e criadora de conteúdo Karou Dias (BA) também celebrou a oportunidade de encerrar o ciclo de circulação do projeto em Arapiraca, destacando a importância de levar a produção cultural para além dos grandes centros. “Eu sou do interior, então é muito bom vir para o interior também para fechar esse ciclo, sabe? Eu acho que é muito importante que a gente continue passando essa cultura para frente, continue falando de literatura, falando de teatro, falando de música, principalmente nos nossos interiores. É importante que a gente se lembre da importância do nosso território, da importância cultural do nosso território. A gente tem muita coisa bonita, não pode esquecer disso, nem deixar de passar isso para frente”, afirmou.
A presença de artistas de diferentes estados brasileiros em Alagoas reforça a importância da descentralização das políticas culturais e da circulação da produção artística nacional. Em três dias de programação, Arapiraca se tornou ponto de encontro de diferentes gerações e manifestações culturais. O encerramento na Vila Vinil, entre poesia, música e celebração, traduziu o propósito que atravessou toda a programação: fazer da cultura um espaço de troca, pertencimento e construção coletiva.