07/08/2026 às 19h21
Por Sarah Azevedo
O ano era 2017. Eu trabalhava como estagiária em uma rede de TV local e fazia a chamada “ronda” (termo utilizado no jornalismo para se referir ao monitoramento diário de ocorrências policiais). Liguei para uma delegacia e me identifiquei utilizando o nome da emissora. Perguntei se havia alguma ocorrência cuja divulgação pudéssemos considerar e ouvi a seguinte resposta: “Não, nada de mais por aqui. Só mais uma ‘Maria da Penha’ mesmo.” As poucas palavras, ditas com tanta naturalidade, causaram um impacto imediato em mim, a constatação de que a violência contra a mulher é tão corriqueira que, em muitos espaços, sequer se torna digna de nota.
No Brasil, durante séculos, a violência contra a mulher foi social e juridicamente validada. A tese da “legítima defesa da honra”, utilizada para tentar justificar feminicídios e agressões contra mulheres ao alegar que o homem reagiu para defender sua reputação após adultério ou suposta infidelidade, foi amplamente utilizada para abrandar penas e absolver homens que assassinavam suas companheiras, como aconteceu no caso Ângela Diniz, de grande repercussão nacional, ocorrido em 1976.
Foi somente em março de 2021 que o Supremo Tribunal Federal declarou a tese inconstitucional. O entendimento foi confirmado de forma definitiva e unânime em 2023, por violar os princípios da dignidade da pessoa humana, da proteção à vida e da igualdade de gênero.
Essa violência historicamente naturalizada nos faz chegar a 2026 com dados que revelam a dimensão do problema no Brasil e em outras partes do mundo. Segundo o Ministério das Mulheres, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) registrou 1,08 milhão de atendimentos em 2025, um aumento de 45% em relação ao ano anterior.
No cenário mais amplo, levantamentos recentes também apontam crescimento nos casos de violência em diferentes regiões, reforçando uma tendência preocupante de aumento dos registros. Em escala global, organismos internacionais como a ONU Mulheres e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertam que a violência de gênero permanece como uma das violações de direitos humanos mais disseminadas no mundo.
Em Alagoas, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registrou, entre janeiro e novembro de 2025, 215 ocorrências de violência contra mulheres, uma média de 20 atendimentos por mês, segundo levantamento das centrais de Maceió e Arapiraca. No mesmo período, a Polícia Civil de Alagoas contabilizou 8.924 boletins de ocorrência relacionados a esse tipo de crime no estado.
Um alerta entre os jovens
Segundo a delegada e coordenadora das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) em Alagoas, Ana Luiza Nogueira, a incidência de casos de violência de gênero se concentra, de forma mais ampla, entre 17 e 29 anos, faixa etária que passou a ser considerada nas análises mais recentes.
De acordo com a delegada, os dados coletados pelo Observatório Alagoas de Igualdade de Gênero (iniciativa formada por meio de uma parceria entre a Polícia Civil de Alagoas, a Universidade Federal de Alagoas e o Centro de Defesa dos Direitos das Mulheres) apontam uma prevalência na faixa etária de 17 a 24 anos, tanto entre vítimas quanto entre agressores.
“Os adolescentes e os jovens estão reproduzindo estereótipos de gênero e cometendo violência contra as mulheres. Isso nos causa muita preocupação, porque vai de encontro àquela percepção que a gente tem de que as novas gerações estão mais conscientes sobre direitos igualitários”, afirmou.
“Os adolescentes e os jovens estão reproduzindo estereótipos de gênero e cometendo violência contra as mulheres. Isso nos causa muita preocupação.”
Um dos fatores que podem contribuir para a disseminação de discursos de violência contra as mulheres é o consumo de conteúdos misóginos nas redes sociais. Segundo um estudo da Fundação Movember, divulgado em 2025, 63% dos homens jovens, com idade entre 16 e 25 anos, nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, consomem regularmente conteúdos de “influenciadores da masculinidade”, que abordam temas relacionados a masculinidade, relacionamentos, dinheiro e identidade.
Parte desses conteúdos integra o que se convencionou chamar de “machosfera”, conjunto de comunidades virtuais que reforçam uma visão de masculinidade baseada em poder, status e controle. Nesses espaços, também se difunde a ideia de que os homens estariam sendo vítimas de misandria (desprezo por homens), invertendo o lugar de vítima e contribuindo para a deslegitimação das denúncias de violência de gênero.
Embora o levantamento citado não tenha sido realizado no Brasil, os dados ajudam a dimensionar a presença desses conteúdos no ambiente digital e seus possíveis impactos sobre a percepção dos jovens acerca das relações de gênero. Além disso, esse cenário chama a atenção não apenas pelos reflexos desse movimento, mas também pela sua desconexão em relação aos avanços legais conquistados nas últimas décadas.
O avanço da legislação no enfrentamento à violência de gênero
A primeira e mais importante legislação brasileira voltada especificamente ao combate à violência doméstica e familiar contra a mulher foi a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), nomeada em homenagem à farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que se tornou símbolo da luta contra a violência doméstica após sobreviver a duas tentativas de homicídio cometidas pelo então marido, em 1983. Sancionada em 2006, a lei completa, hoje, 7 de agosto de 2026, 20 anos e é reconhecida internacionalmente como uma das mais avançadas no enfrentamento à violência contra a mulher.
Antes dessa lei, muitos casos de violência doméstica eram tratados como crimes de menor potencial ofensivo, ou seja, considerados de menor gravidade. Não era incomum que o agressor ficasse sem punição, uma vez que muitas penas se reduziam a trabalhos comunitários ou ao pagamento de cestas básicas.
Para a delegada Ana Luiza Nogueira, a Lei Maria da Penha representou o início de uma mudança de paradigmas na percepção acerca da violência de gênero: “O que acontecia anteriormente é que havia uma normalização dessa violência. Foi a partir da Lei nº 11.340 que casos de violência contra a mulher se tornaram, de fato, casos de polícia, com o agressor recebendo uma penalidade. Isso auxiliou na redução do sentimento de impunidade que, durante tantos anos, perpassou as mulheres.”
Entretanto, é importante ressaltar que, embora represente um marco e um avanço na legislação, a Lei Maria da Penha não garante, por si só, a interrupção dos atos de violência, que seguiram e seguem ocorrendo mesmo após sua sanção. Por se tratar de um problema estrutural, solidamente enraizado na sociedade brasileira, o enfrentamento à misoginia se mostra contínuo e deve ocorrer em diferentes esferas sociais. Isso implica não apenas a aplicação rigorosa da lei, mas também a transformação de padrões culturais, a ampliação de políticas públicas e a promoção de uma educação voltada à equidade de gênero.

Os diferentes tipos de violência
Na Lei Maria da Penha, são previstos seis tipos de violência doméstica e familiar: física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e vicária. Essa tipificação foi fundamental para o avanço da compreensão de que a violência de gênero pode se manifestar de diferentes formas, auxiliando as vítimas no reconhecimento de cenários de abuso.
Cada uma dessas categorias ajuda a nomear práticas muitas vezes naturalizadas no cotidiano. A violência física diz respeito a qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal, enquanto a psicológica envolve ações que causem dano emocional, diminuam a autoestima ou controlem comportamentos, crenças e decisões. Já a violência sexual inclui situações de constrangimento a atos não desejados, exploração da sexualidade ou imposição de gravidez, casamento ou aborto. A violência patrimonial refere-se à retenção, subtração ou destruição de bens e recursos, e a moral abrange condutas como calúnia, difamação e injúria. Soma-se a isso a violência vicária, que ocorre quando a agressão é direcionada a terceiros, como filhos, para atingir a mulher.
Antes, era ainda mais difícil se reconhecer como vítima e identificar as diversas formas pelas quais a violência se manifesta. Afinal, como identificar o que nunca foi nomeado? O relato da assistente Girlene Gomes ajuda a ilustrar essa realidade. Vítima de violência doméstica, ela conta que, ao se casar, em 1993, sequer ouvia falar sobre assédio.
“Na época, o homem sempre tinha razão. Se eu apanhava, era porque merecia; se ele me traía, era porque eu estava gorda. Cheguei a ouvir de um funcionário de uma delegacia que, se ele realmente fosse me matar, isso já teria acontecido.”
“Se eu apanhava, era porque merecia; se ele me traía, era porque eu estava gorda.”
Outra entrevistada, que aqui chamarei de Vitória, relata que também sofreu violência por parte do ex-marido a partir dos 14 anos, idade em que se casou, já à espera da primeira filha. Sem rede de apoio, sem condições financeiras que lhe possibilitassem independência e com uma criança para cuidar, Vitória passou anos em uma relação marcada por agressões que, como em muitos casos, se manifestaram de diferentes formas.
“Ele me batia e me violentava. Cheguei a ir para um pronto-socorro toda ensanguentada, depois que ele quebrou um prato de louça na minha cabeça. Ele também tinha várias amantes, que iam buscá-lo na porta da nossa casa, e eu não podia falar nada porque, se falasse, ele me espancava. Nas vezes em que queria ter relações comigo e eu não queria, porque estava menstruada, ele me obrigava a mostrar o absorvente e, quando via que eu estava falando a verdade, dava socos no meu rosto e chegava a me agredir com um cinto. Foram anos assim, nesse sofrimento.”
Infelizmente, relatos como esse são bastante comuns. Ainda assim, a disseminação de informação e a ampliação dos dispositivos de acolhimento têm permitido observar sinais de mudança. A partir da análise estatística e criminal da Polícia Civil de Alagoas, o crime que hoje ocupa o primeiro lugar nos registros de boletins de ocorrência é o de ameaça, seguido pela lesão corporal (violência física). Para a delegada Ana Luiza, os dados apontam uma transformação importante no comportamento das vítimas.
“Durante muitos anos, a violência física era o principal motivo de registro. Hoje, não mais. Boa parte das mulheres não espera a agressão física para procurar a delegacia e registrar o boletim de ocorrência. Logo após uma ameaça de agressão ou de feminicídio, a vítima já busca atendimento.”
Informação e acolhimento como caminhos para o enfrentamento da violência
Algumas ferramentas de enfrentamento à violência contra a mulher, como campanhas educativas e espaços de escuta e acolhimento, têm auxiliado muitas vítimas a identificar comportamentos abusivos, reunir forças para denunciar e romper o ciclo de abuso. A delegada Ana Luiza destaca que esse tipo de iniciativa pode ser decisivo.
“Conhecemos mulheres que viviam em relacionamentos abusivos há mais de 25 anos e que romperam depois de terem visto, na mídia, um chamamento à denúncia. Por isso, campanhas de conscientização são tão importantes, pois ajudam as mulheres a romper o ciclo da violência.”
Ainda assim, há muitos casos em que a saída não vem de organizações ou de espaços institucionalizados. Para Girlene, foi o nascimento do filho que lhe deu forças para sair da relação abusiva. “Queria que ele tivesse orgulho de mim, que me visse como uma mulher forte. Hoje, digo a mim mesma que sou linda e maravilhosa, não deixo ninguém dizer o contrário.” Já Vitória conta que o apoio de uma antiga chefe foi essencial.
“Hoje, digo a mim mesma que sou linda e maravilhosa, não deixo ninguém dizer o contrário.”
Casos como o de Vitória servem também para nos lembrar do papel que devemos exercer enquanto sociedade, não compactuando com a naturalização da violência, denunciando agressores e apoiando as vítimas. Também é importante ter em mente que, ainda que o ciclo de violência tenha ficado para trás, os traumas permanecem, e seus efeitos podem se estender por anos. Por isso, o cuidado com as vítimas precisa ir além do momento de ruptura do abuso.
Vitória relata que, em 2011, anos depois do fim de seu relacionamento, teve depressão e precisou procurar ajuda. “Faço tratamento até hoje. Passei por muita coisa e, até agora, nunca tinha contado tudo. Nem minhas filhas, que já são adultas, sabem.” Em 2025, ela conheceu o Fortes Raízes, iniciativa do Sesc Alagoas voltada ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade social ou vítimas de violência doméstica, e destacou a importância do projeto em seu processo de reconstrução.
“Participar das reuniões, dos encontros, dos passeios… tudo isso tem ajudado muito a minha mente. É um processo de reconstrução. Estou conhecendo outras pessoas, outras formas de pensar, e tenho aprendido muito. Hoje, me sinto outra mulher. Aquela Vitória que apanhava, que chorava, que só pensava coisas negativas, ficou pra trás. Comecei a me reconstruir, a me sentir fortalecida. Ainda é difícil falar sobre isso, mas hoje consigo seguir em frente.”
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados por meio da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), que funciona 24 horas por dia em todo o país. Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Também é possível buscar atendimento em Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e em centros de referência, que oferecem apoio psicológico, jurídico e social às vítimas.