4 de setembro de 2019

A influência das oficinas de escrita na nova literatura alagoana

A Folha Fecomércio convidou dois poetas recém-publicados, que falaram sobre as experiências com oficinas de escrita realizadas pelo Sesc

O Sesc está na biografia da maioria dos escritores alagoanos da nova geração

Feche os olhos, imagine um escritor trabalhando. Um corpo solitário, sentado em frente ao computador, fitando uma vírgula, sofrendo com a dúvida e com o desejo de resolver todos os problemas do mundo no fim de um parágrafo; ao fundo, o cheiro do dia nascendo. Não é só isso. A solidão não é mais tão companheira do ofício do poeta. Afinal, é preciso viver para escrever. Conhecer a linguagem como poucos, para torcer as línguas. É para isso que servem as tantas oficinas, cursos e reuniões nos fundos dos bares e cafés. Em todo o país, o Sesc realiza diversas ações literárias com o objetivo de fomentar a disseminação da leitura e a produção de livros. Em Alagoas, a instituição vem influenciado diversos autores. Foi o que aconteceu com Jean Albuquerque e Fátima Costa, que depois de participarem de algumas dessas ações, publicaram, respectivamente, os livros de poesia “Os deuses estão embriagados de uísque falsificado” (Sirva-se, 2019) e “Valsa Triste” (Graciliano, 2018). A Folha Fecomércio convidou os autores para uma conversa sobre o processo de escrita e as experiências de aprendizagens.

Folha Fecomércio – Por que escrever?

Jean Albuquerque – Escrever para sair do lugar comum, para ser lembrado. Escrever para trabalhar as neuroses internas. Pôr pra fora o que rasga e inflama. Para não sair por aí cometendo crimes. São tantas as razões que fica difícil definir o que de fato seria a minha principal motivação. Escrever vem do latim: “scrībo” que significa traçar uma linha, marcar, assinalar, gravar, desenhar, representar em caracteres. Alguns entusiastas também diriam que escrever é um movimento em busca da cura.

Fátima Costa – Escrevo porque ser leitora não é o bastante. Pelo menos hoje. A literatura me acompanha desde o ensino médio, foi meu objeto de estudo na universidade e agora faz parte da minha profissão, pois sou professora de Língua Portuguesa e, agora, também me reconheço como escritora.

Folha Fecomércio – Diante da modernidade que otimiza as expressões escritas por meios visuais, o livro ainda tem seu espaço circulando entre estantes e mochilas?

Jean Albuquerque – Por mais que modernizem as empresas e os arquivos em papel se tornem acervo digital, o livro ainda será um objeto capaz de trazer uma memória afetiva e de ser um companheiro quando tudo e todos desistem de você. No meu caso, sempre ando com um livro na mochila. Para todos os lugares. Companheiro até o resto dos meus dias. Sinto que falta algo quando olho a bolsa e não vejo nenhum livro dentro.

Fátima Costa – Acredito que sim. Eu, por exemplo, não me desfaço dos meus livros e tenho um lugar especial para eles em casa. Há também opções como o leitor digital que barateia o custo do livro (que é ainda é muito caro no Brasil) e possibilita uma praticidade ao leitor, que pode carregar uma biblioteca num aparelho muito leve.

“Escrevo porque ser leitora não é o bastante.”

Folha Fecomércio – Enquanto autores, quais as alternativas para instigar no universo infanto-juvenil o gosto pela leitura?

Jean Albuquerque – O leitor precisa ser formado e o melhor lugar para isso é no ambiente escolar. A leitura não com imposição, mas como apontamento para uma nova descoberta. O que está em jogo, nesse sentido, é a preferência de cada leitor. Não dá para formar leitor descendo goela abaixo livros e livros só para cumprir o currículo escolar. Não funciona!

Fátima Costa Uma estratégia interessante para instigar o gosto pela leitura no público adolescente, é apresentar livros que façam parte do universo deles, e, a partir disso, inserir, de acordo com a aceitação de cada um, obras que o incentivador julgue interessante para eles conhecerem. Acredito que o gosto pela literatura pode ser dado através do diálogo, de como a leitura de uma determinada obra é imposta aos jovens.

Folha Fecomércio – Como é o seu processo de escrita?

Jean Albuquerque Quando tenho algum projeto em mente, a preparação de um livro ou algum texto para submeter a prêmios, vou escrevendo sem nenhuma rotina específica até conseguir me livrar da angústia que é a sensação de não dar conta do texto. Daí vou passar madrugadas tentando ou o dia inteiro fazendo anotações até chegar num momento em que eu me sinta satisfeito. Escrever é um ato solitário. A solidão para a produção do texto literário é como um leão de chácara dos bares e casas de show ou um cão fiel ao seu dono.

Fátima Costa – Quando surge uma ideia, eu anoto no celular e tento escrever ao menos um esboço e salvá-lo na nuvem. Não lido bem com o acúmulo de notas porque eu as abandono. Acaba surgindo uma outra ideia, uma outra forma de texto, e as notas ficam lá esquecidas, terminando por serem só notas. Eu gosto do esboço, ao menos um parágrafo, deixando pontos a serem ligados depois. E a pesquisa nasce desses pontos. Primeiro eu faço um esboço, pesquiso e retorno ao texto novamente. Esse processo se repete até o texto estar “pronto”.

Folha Fecomércio – As oficinas de escrita criativa estão se proliferando como nunca. Como você lida com esse contato com o outro artista nesses espaços?

Jean Albuquerque – Sem dúvida é um espaço que possibilita muita aprendizagem. Destaco principalmente as leituras propostas e o contato com obras até então desconhecidas. Além da vivência com os outros escritores. Saber da realidade da cidade deles, de como é a cena literária do lado de lá. Os contatos são sempre enriquecedores, de trocas, de aprendizados e etc.

Fátima Costa As oficinas com escritores de outros estados possibilitam não só um espaço de conhecimento, mas de experiências. Sempre procuro estar presente nessas trocas porque acredito que tenho muito a aprender, como já aprendi muito desde a primeira oficina que participei.

A experiência no curso trouxe maturidade na escrita. Sem ele eu não conseguiria publicar, montar uma editora independente e ser premiado num concurso de poesias.

Folha Fecomércio – Como você soube dos cursos e oficinas de literatura ofertados pelo Sesc? E o que te motivou a se inscrever?

Jean Albuquerque Pelo site do Sesc. Participei do Laboratório de Expressão e Criação Literária no primeiro ano, em 2014. Escrevia sem muita pretensão. A surpresa veio com a aprovação no curso. À época, já escrevia coisas soltas e queria montar uma pequena editora para lançar meus próprios livros. A motivação para fazer o curso foi, sem dúvida alguma, no intuito de melhorar o que ainda estava muito cru. Ter contato com pessoas que também escrevem e moram na mesma cidade foi outro ponto. E ler autores até antes desconhecidos. A experiência no curso trouxe maturidade na escrita. Sem ele eu não conseguiria publicar, montar uma editora independente e ser premiado num concurso de poesias.

Fátima Costa Tive a oportunidade de ser estagiária do Sesc Alagoas e foi a partir dessa experiência que tive conhecimento das atividades em Literatura que a instituição ofertava. Nessa época, eu estava satisfeita com a minha condição de estudante de Literatura, mas o Sesc me mostrou o lado criativo da escrita, a possibilidade de também ser escritora, se assim eu quisesse. A motivação, lá, estava em todos os lugares e, principalmente, nas pessoas que participavam e que hoje são meus amigos.

Folha Fecomércio – O que acha das ações do Sesc voltadas para a literatura?

Jean Albuquerque – Enriquecedoras e necessárias. Maceió é uma cidade muito carente quando o assunto são os eventos literários, cursos de literatura. E o Sesc vem fortalecendo essa cena. Proporcionando o público a ter um contato mais estreito com a arte literária. Espero que nunca acabe. E que venham novas gerações de leitores e escritores. Avante!

Fátima Costa Percebo que as ações proporcionadas pelo Sesc ajudam a fomentar significativamente a produção literária nos dias de hoje. Vejo que muitos autores que foram publicados e premiados ultimamente, foram alunos de cursos ou oficinas ofertadas pelo Sesc.  Penso que nós, leitores e escritores, só temos a ganhar com as atividades que nos são oportunizadas.

Folha Fecomércio – Depois do Laboratório de Expressão e Criação Literária e das oficinas do Arte da Palavra ficou mais fácil escrever?

Jean Albuquerque – Não é que ficou fácil. O trabalho de lidar com textos de qualidade e clássicos da literatura universal faz com que o escritor fique cada vez mais criterioso. Que busque uma perfeição ou efeito que nem sempre vai alcançar. O ato de escrever requer dedicação. Sentar a bunda no computador por horas a fio e escrever, escrever, revisar, dar uma pausa para o texto “maturar” e depois voltar nele para resolver problemas. O curso ajudou dando mecanismos para solucionar essas questões. A ter maturidade para escolher bons livros que irão ajudar nesse percurso árduo.

Fátima Costa Não. Nenhuma oficina ou curso fará o processo de escrita ser fácil, pois fazer arte é muito difícil. O que o laboratório e as oficinas podem propiciar é um olhar mais crítico sobre a escrita do outro e, de preferência, sobre a sua escrita. Para sermos bons escritores é fundamental sermos bons leitores. Conhecer um pouco de teoria e crítica literária não faz mal a ninguém, pelo contrário, só agrega. Tanto nos laboratórios quanto nas oficinas, temos o contato com a leitura crítica e exercitamos nossa escrita, o que, para mim, é um ponto importante, já que assim lapidamos e amadurecemos aquilo que a gente escreve.

Folha Fecomércio – Por que os leitores atentos e os aspirantes a escritores devem fazer os cursos e oficinas do Sesc?

Jean Albuquerque O curso é altamente recomendável. Ele ajuda a filtrar as leituras e faz com que o aluno perceba quais são suas qualidades e dificuldades enquanto escritor. Além de possibilitar a criação de uma rede de leitura/escrita, fortalecendo o cenário local e o aparecimento de novas publicações no estado. A maior parte dos escritores que foram publicados por meio de um edital estadual já foram alunos dos cursos e oficinas literárias do Sesc.

Fátima Costa Vai da necessidade de cada escritor. Participando dos cursos e oficinas, consegui não só desenvolver a minha escrita, mas também um olhar crítico sobre aquilo que escrevo. É interessante lembrar que nesses encontros os textos são partilhados e isso torna a experiência mais rica. Saber fazer e receber críticas é um exercício que também temos que praticar. Eu recomendo a participação.

As publicações vieram depois do contato com o Laboratório de Criação Literária

Texto e fotos: Lucas Litrento (estagiário) para a Folha Fecomércio (com adaptações)